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Bardo da Ordem Druídica Vozes do Bosque Sagrado.

10 de janeiro de 2006

Como o Jabuti Venceu o Veado na Carreira

Uma das atitudes mais comuns que vejo no mundo pagão são os pré-julgamentos que as pessoas fazem, baseando-se em aparências e impressões que todo mundo que mexe com qualquer tipo de magia deveria ter o cuidado de investigar mais a fundo. Este é um bom exemplo do que nos pode acontecer quando nos deixamos enredar na teia das ilusões que nos acompanha todos os dias.

Além deste motivo, por si só suficiente para divulgar esta lenda indígena, vale atentar para a riqueza do que o povo brasileiro ignora que exista nas nossas terras, falado na língua dos primeiros povos a habitar este paraíso que chamamos Brasil (que descobri gostarem de ser chamados de indígenas, e não de "índios"). Vale também atentar para a linguagem antiga, pois esta lenda foi recebida por um inglês no final do século XIX e divulgada num livro de língua inglesa (EUA), para somente chegar até nós (que tão facilmente desprezamos a cultura do solo que nos sustenta) somente recentemente.

Vamos à lenda.



Um jabuti encontrou um veado e perguntou:

— Ó, veado, o que está fazendo?

O veado respondeu:

— Vou passear em procura de alguma cousa para comer.

E acrescentou:

— E você jabuti, onde vai?
— Vou também passear; procurar água para beber.
— E quando espera chegar ao lugar onde há água? – perguntou o veado.
— Por que me faz esta pergunta – replica o jabuti.
— Porque suas pernas são muito curtas.
— Sim? – respondeu o jabuti – Eu posso correr mais do que você. Mesmo com as pernas compridas você corre menos do que eu.
— Muito bem, apostemos uma carreira...
— Está certo – respondeu o jabuti, – quando correremos?
— Amanhã.
— A que horas?
— De manhã muito cedo...

Eng-eng* assentou o jabuti, que foi em seguida ao mato e chamou todos os seus amigos, os outros jabutis, dizendo:

— Venham, vamos matar o veado!
— Como você vai matá-lo?
— Eu disse ao vedo – respondeu o jabuti – apostemos uma carreira! Quero ver quem corre mais. Agora vou enganar o veado. Vocês espalhem-se pela margem do campo, no mato, sem ficarem muito distantes uns dos outros e conservem-se quietos, cada um no seu lugar! Amanhã, quando começarmos a aposta, o veado correrá no campo, mas eu ficarei sossegadamente no meu lugar. Quando ele chamar por mim, se vocês estiverem adiante dele, respondam mas tenham o cuidado de não responder se ele tiver passado adiante de vocês.

Desta forma, na manhã seguinte, muito cedo, o veado saiu ao encontro do jabuti:

— Venha! — disse o primeiro — corramos!
— Espere um pouco! — disse o jabuti — eu vou correr dentro do mato!...
— E como é que você, tão pequeno e com pernas tão curtas, há de correr no mato? – perguntou, supreendido, o veado.

O jabuti teimou que não podia correr no campo mas estava habituado a correr no mato, de modo que o veado concordou e o jabuti entrou no mato dizendo:

— Quando eu tomar minha posição farei um barulho com uma vara para você saber que estou pronto.

Quando o jabuti, tendo chegado ao seu lugar, deu o sinal, o veado saiu lentamente, rindo-se e pensando que não valia a pena correr. O jabuti ficou atrás sossegadamente. Depois de ter andado uma pequena distância, o veado volveu-se e chamou:

— U'i Yuatí! (Ó Jabuti!).

Então, admirado, ouviu um jabuti gritar um pouco adiante:

— U'i suaçu! (Ó Veado!).
— Pois – disse o veado a si mesmo – aquele jabuti corre mesmo!

E amiudando os passos depois de alguma distância gritou novamente, mas a voz do jabuti ainda respondia adiante.

— Como assim? – exclamou o veado, e correu um pouco mais até que, supondo ter seguramente passado o jabuti, parou, voltou-se e chamou novamente, porém o grito "U'i suaçú!" veio da margem da floresta adiante dele. Então o veado começou a assustar-se e correu velozmente até que, julgando estar distante do jabuti, parou e chamou; porém um jabuti respondeu ainda em frente.

Vendo isto disparou o veado, e pouco depois, sem aprar, chamou pelo jabuti, que ainda gritou mais adiante "U'i suaçú!" O veado redobrou as forças, asm com o mesmo insucesso. Por fim, cansado e desorientado, atirou-se de encontro a uma árvore e caiu morto.
tendo cesasdo o ruído que faziam as patas do veado, o primeiro jabuti escutou. Não havia nenhum som. Então o jabuti chamou pelo veado, mas não recebeu resposta. Saiu do mato e encontrou o veado esntendido e morto. Reuniu então todos os seus amigos e festejou a vitória.



Extraído do livro "Mitos Amazônicos da Tartaruga", de Charles Frederick Hartt. Editora Elos, 1988.

* Sim! O ng representa uma nasal.

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