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Bardo da Ordem Druídica Vozes do Bosque Sagrado.

4 de janeiro de 2007

Sobre Tolerância

Há muito tempo atrás houve um tópico na comunidade Paganismo, a qual eu gerencio no Orkut, e eu postei um texto a respeito dessa discussão no endereço antigo deste blog.

Depois desta virada de ano tão marcada pela intolerância entre povos, governos e pessoas pelo mundo afora, resolvi aprofundar um pouco minha análise e colocá-la aqui, revisada. E como religioso e sacerdote, creio que este tipo de reflexão é algo de que precisamos bastante, no ano que se inicia e em todos os passos de nossas jornadas.

"Tolerar a existência do outro,
e permitir que ele seja diferente,
ainda é muito pouco.

Quando se tolera, apenas se concede,
e essa não é uma relação de igualdade,
mas de superioridade de um sobre o outro.

Deveríamos criar uma relação entre as pessoas,
da qual estivessem excluídas
a tolerância e a intolerância".

José Saramago


O tolerar e o conviver são conceitos bem diferentes, os quais têm se misturado perigosamente nos discursos tanto no meio pagão quanto por parte da sociedade em geral para com o Paganismo. Já temos há algum tempo uma Cartilha de Diversidade Religiosa e Direitos Humanos, mas o fazer cumprir a lei e, mais ainda, mudar a mentalidade do ser humano, é uma meta bem mais árdua e trabalhosa que um conjunto de palavras. É necessário mostrar a cada pagão o que é realmente ser um pagão e o que é estar em contato com os Deuses, bem como o papel de cada um de nós não só perante à comunidade pagã mas perante à sociedade, o mundo e o planeta que nos acolhe.

Assim como uma semente que germina e irrompe do solo como uma pequena planta antes de tornar-se na grande árvore a que se destina, temos também um longo caminho a percorrer.

Primeiramente, é necessário compreendermos a importância da consciência ecológica em nossa prática, pois enquanto semeamos nossos jardins aprendemos a cuidar de nossas praças, e em breve estaremos revitalizando nossas cidades. Assim compreendemos que o solo no qual elas estão erigidas é sagrado, e passamos a ensinar outros a cuidas de seus próprios jardins e do solo sob o cimento que firma seus pés.

Através desta vivência aprendemos os porquês da prática pagã e da necessidade de uma convivência harmônica entre as muitas formas que os Deuses têm de se manifestar para nós, e em seguida mostrarmos juntos à sociedade que não estamos aqui para atacá-la, mas apenas queremos vivenciar a nossa própria fé e ter nossa cultura respeitada em suas diversas e sagradas nuances. E neste momento começamos a entender a diferença entre tolerância e convivência, pois encontraremos fora da nossa crença pessoas dispostas não apenas a respeitar nossos direitos, mas interessadas em compreender aquilo em que acreditamos; e passamos a caminhar em buscando o diálogo com os povos.

À medida que aprendermos o significado de conviver, passamos a curar as feridas do passado e projetar melhor nosso futuro. Mais que mera teoria, agora praticamos essa convivência em nossos lares, em nossas tribos, em nossa comunidade e em nosso país. Entendermos então a necessidade de sermos verdadeiros conosco, respeitar nosso ritmo e conhecer quem realmente somos, e em seguida aprendermos a reconhecer e respeitar esse processo nas pessoas e ideologias com quem travamos contato.

E a partir dessa consciência, ao final desta jornada, "tolerância" parece um termo muito mesquinho e infeliz, uma vez que abraçamos o diferente e com ele trabalhamos em prol dos ideais que temos em comum.


Cuide do seu jardim enquanto escuta "One", cantada pelo U2 Acompanhe a letra e a tradução pelo próprio link e assista ao vídeo clipe desta canção.

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1 Comentários:

Blogger Tatiana Mamede disse...

Ok, li, reli, pensei, e o gancho que me prendeu na primeira lida, definitivamente me fisgou na releitura,"Entendermos então a necessidade de sermos verdadeiros conosco, respeitar nosso ritmo e conhecer quem realmente somos". Pronto, essa é a chave. Não existe tolerância, compreensão ou aceitação de fatores externos enqto não abraçamos a nossa parte mais obscura, e esse abraço não sobrevive se não estiver intimamente conectado com o aceite da nossa parte mais iluminada. E por vezes é muito mais difícil admitir nossas "virtudes" (ou qualidades) do que dar às mãos aos nossos defeitos.

10 janeiro, 2007 12:20  

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