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Bardo da Ordem Druídica Vozes do Bosque Sagrado.

11 de julho de 2007

Vai uma palavra?

O texto é divertido, mas o assunto e a crítica são sérios. Em tempo em que não se lê, só resta ao pensador vender palavras e ao leitor deparar-se com textos como esse, que sutilmente nos informam o quanto estamos deixando nossa capacidade de pensar, e por conseguinte compreender o mundo em que vivemos, cada vez mais de lado.

Até que qualquer um fale alguma coisa em versões torcidas e coloridas de fatos os quais tornam-se cada vez menos reais enquanto a mentira torna-se o novo paradigma e nós, qual gado que escolhemos nos tornar, seguimos a linha rumo ao matadouro.

Bom texto!


O Vendedor de Palavras

Ouviu dizer que o Brasil sofria de uma grave falta de palavras. Em um
programa de TV, viu uma escritora lamentando que não se liam livros
nesta terra, por isso as palavras estavam em falta na praça. O mal tinha
até nome de batismo, como qualquer doença grande, "indigência lexical".
Comerciante de tino que era, não perdeu tempo em ter uma idéia
fantástica. Pegou dicionário, mesa e cartolina e saiu ao mercado cavar
espaço entre os camelôs.

Entre uma banca de relógios e outra de lingerie instalou a sua: uma
mesa, o dicionário e a cartolina na qual se lia: "Histriônico — apenas
R$ 0,50!".

Demorou quase quatro horas para que o primeiro de mais de cinqüenta
curiosos parasse e perguntasse.

— O que o senhor está vendendo?

— Palavras, meu senhor. A promoção do dia é histriônico a cinqüenta
centavos como diz a placa.

— O senhor não pode vender palavras. Elas não são suas. Palavras são de
todos.

— O senhor sabe o significado de histriônico?

— Não.

— Então o senhor não a tem. Não vendo algo que as pessoas já têm ou
coisas de que elas não precisem.

— Mas eu posso pegar essa palavra de graça no dicionário.

— O senhor tem dicionário em casa?

— Não. Mas eu poderia muito bem ir à biblioteca pública e consultar um.

— O senhor estava indo à biblioteca?

— Não. Na verdade, eu estou a caminho do supermercado.

— Então veio ao lugar certo. O senhor está para comprar o feijão e a
alface, pode muito bem levar para casa uma palavra por apenas cinqüenta
centavos de real!

— Eu não vou usar essa palavra. Vou pagar para depois esquecê-la?

— Se o senhor não comer a alface ela acaba apodrecendo na geladeira e
terá de jogá-la fora e o feijão caruncha.

— O que pretende com isso? Vai ficar rico vendendo palavras?

— O senhor conhece Nélida Piñon?

— Não.

— É uma escritora. Esta manhã, ela disse na televisão que o País sofre
com a falta de palavras, pois os livros são muito pouco lidos por aqui.

— E por que o senhor não vende livros?

— Justamente por isso. As pessoas não compram as palavras no atacado,
portanto eu as vendo no varejo.

— E o que as pessoas vão fazer com as palavras? Palavras são palavras,
não enchem barriga.

— A escritora também disse que cada palavra corresponde a um pensamento.
Se temos poucas palavras, pensamos pouco. Se eu vender uma palavra por
dia, trabalhando duzentos dias por ano, serão duzentos novos pensamentos
cem por cento brasileiros. Isso sem contar os que furtam o meu produto.
São como trombadinhas que saem correndo com os relógios do meu colega
aqui do lado. Olhe aquela senhora com o carrinho de feira dobrando a
esquina. Com aquela carinha de dona-de-casa ela nunca me enganou. Passou
por aqui sorrateira. Olhou minha placa e deu um sorrisinho maroto se
mordendo de curiosidade. Mas nem parou para perguntar. Eu tenho certeza
de que ela tem um dicionário em casa. Assim que chegar lá, vai abri-lo e
me roubar a carga. Suponho que para cada pessoa que se dispõe a comprar
uma palavra, pelo menos cinco a roubarão. Então eu provocarei mil
pensamentos novos em um ano de trabalho.

— O senhor não acha muita pretensão? Pegar um...

— Jactância.

— Pegar um livro velho...

— Alfarrábio.

— O senhor me interrompe!

— Profaço.

— Está me enrolando, não é?

— Tergiversando.

— Quanta lenga-lenga. ..

— Ambages.

— Ambages?

— Pode ser também evasivas.

— Eu sou mesmo um banana para dar trela para gente como você!

— Pusilânime.

— O senhor é engraçadinho, não?

— Finalmente chegamos: histriônico!

— Adeus.

— Ei! Vai embora sem pagar?

— Tome seus cinqüenta centavos.

— São três reais e cinqüenta.

— Como é?

— Pelas minhas contas, são oito palavras novas que eu acabei de entregar
para o senhor. Só histriônico estava na promoção, mas como o senhor se
mostrou interessado, faço todas pelo mesmo preço.

— Mas oito palavras seriam quatro reais, certo?

— É que quem leva ambages ganha uma evasiva, entende?

— Tem troco para cinco?

Fábio Reynol


Compre suas palavras ao som de "The Logical Song", cantada pelo Supertramp. Acompanhe a letra e a tradução e não perca esse vídeo da canção ao vivo.

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2 Comentários:

Blogger Pagan Love Songs disse...

Ótimo texto!
É realmente uma pena a displicência com relação ao vocabulário, palavras, literatura e afins.

Estava discutindo esses dias o fato de os livros no Brasil serem sujeios a impostos e terem seus preços aumentados.
Em uma população que no geral ganha menos de 5 reais por dia, é óbvio que o livro será um dos primeiros a serem descartados.

Vou viajar para o exterior nesse mês e vou abastecer a estante, comprando livros e mais livros!

Tenha uma ótima noite, ou dia!
Bons ventos!

11 julho, 2007 19:59  
Blogger Tatiana Mamede disse...

A palavra que cala é a mesma que pelos veios do mundo se acasala
Predadora e caça, tantas vezes somos apenas cadeias de palavras.

Parece-me necessária apenas pq coma habilidade de conhecê-las ao mundo vim
E se aos meus olhos não se pudessem nutrir
De minhas mãos não pudessem sair
Se de meus tímpanos não fizessem morada, ainda assim humanas seriam as palavras em mim.

13 julho, 2007 01:47  

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