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Local: Brasília, DF, Brazil

Bardo da Ordem Druídica Vozes do Bosque Sagrado.

26 de setembro de 2006

O Rouxinol do Imperador

    O palácio do imperador da China era uma das coisas mais bonitas que existiam no mundo. Construído em mármore branco, possuía torres de marfim, paredes revestidas com tecidos de cores variadas e quartos decorados com ouro e prata. Era realmente uma maravilha!
    O jardim também era de enorme beleza; nele cresciam flores raras e belas. Havia inúmeros rios e lagos, onde nadavam peixes de todas as espécies e tamanhos.
    Para além do jardim, se estendia uma mata, que chegava até o mar e no interior dela vivia um rouxinol de canto único. De sua pequenina garganta saíam melodias tão emocionantes, que faziam chorar quem as escutasse.
    Turistas do mundo todo iam admirar o palácio do imperador chinês e ficavam maravilhados diante de tanta beleza. Mas, quando ouviam o canto do rouxinol, todos admitiam que aquilo sim era a coisa mais bonita e rara do grande império.
    Entre os visitantes havia escritores que, ao retornar às suas pátrias, escreviam livros a respeito do prodigioso pássaro que vivia no centro da mata, próximo ao palácio imperial. E dedicavam a ele os maiores elogios, muito mais do que à maravilhosa casa do imperador chinês.
Um dia, um daqueles livros chegou às mãos do imperador. O soberano o leu e ficou, ao mesmo     tempo, surpreso e enfurecido. Mandou logo chamar o primeiro ministro.
    — Incrível! No bosque que faz divisa com os jardins imperiais vive um rouxinol cujo canto é incomparável, e eu o desconheço! Tive que ler um livro estrangeiro para aprender que a maior maravilha de meu país é um pássaro de voz de ouro, e não este meu soberbo palácio! Diga-me, por que não fui informado?
    — Eu também ignorava o fato, meu senhor – respondeu o primeiro-ministro, assustado com a ira do imperador. – Mas vou descobri-lo.
    — E que seja muito breve. Nesta noite mesmo o rouxinol deverá cantar somente para mim.
    O primeiro-ministro iniciou as buscas. Interrogou príncipes e nobres, guardas e cavaleiros. Ninguém sabia da existência de tal ave. Sem nada descobrir, o primeiro-ministro voltou ao imperador:
    — Meu senhor, não se consegue encontrar o rouxinol. Talvez não exista, talvez seja apenas invenção do autor do livro.
    Mas o imperador não quis explicações. Exigia o prodigioso rouxinol! Ou naquela noite o rouxinol cantava para a corte, ou o primeiro-ministro seria punido.
    O pobre homem recomeçou a percorrer ruas e praças, perguntando a todos sobre o tal pássaro.
    Por fim, encontrou na cozinha imperial uma serviçal que comentou:
    — O rouxinol… Conheço-o, sim. Às vezes, à noite, paro no bosque para ouvir seu canto maravilhoso. Tem uma voz tão bela e harmoniosa, que chego a chorar de emoção.
    — Poderia me ajudar a procurá-lo?
    — Claro que sim, Excelência.
    Imediatamente, ele mandou organizar uma comitiva de cavaleiros e cortesãos para, sob orientação da serviçal, ir procurar o rouxinol na mata.
    Estavam andando já há algum tempo, quando se ouviu um mugido. Os cavaleiros pararam, curiosos.
    — Deve ser o rouxinol cantando. Que voz agradável!
    — Esse foi o mugido de uma vaca – riu a mulher. O rouxinol vive mais longe.
    Após longa caminhada, a serviçal parou em frente a uma árvore e mostrou uma ave minúscula, de plumas acastanhadas, que saltitava entre os galhos.
    — Ali está, aquele é o rouxinol, o pássaro de canto comovente.
    O primeiro-ministro e seu séquito ficaram desapontados com o aspecto modesto do rouxinol. Nem de longe sua aparência era comparável à beleza do palácio. Porém, quando escutaram sua voz, todos ficaram encantados. E convidaram-no para ir à corte.
    O rouxinol aceitou o convite.
    Foram feitos grandes preparativos para sua chegada: flores por toda parte, assoalhos encerados e brilhantes, e uma gaiola toda de ouro, no meio da sala do trono, para o pequeno e ilustre cantor. Sentado no trono, o imperador aguardava com impaciência o momento em que escutaria as maravilhosas melodias que todos comentavam.
    Assim que chegou, o rouxinol pousou sobre a gaiola, olhou com respeito o ilustre anfitrião – o imperador da China – e começou a cantar. Seu canto era tão comovente que o imperador chorou, emocionado. Terminado o concerto, ele disse para o rouxinol:
    — Fique comigo para sempre, para minha felicidade. Em troca, terá tudo que pedir, tudo que mais o agradar! Tudo que quiser.
    — Majestade – respondeu o passarinho. – Enquanto eu cantava, vi lágrimas em seus olhos. Isto, para mim, é a recompensa maior, não peço mais nada. Se Vossa Majestade assim o deseja, estou pronto para abandonar a mata e alegrar sua vida com minha voz, sempre que quiser.
    E assim, o rouxinol ficou no palácio, abrigado na gaiola de ouro pendurada nos aposentos do imperador.
    Cantava freqüentemente para seu amo e uma vez por dia dava um passeio no jardim – mas preso pela patinha a um fio de seda conduzido pelo primeiro-ministro.
    Um dia, o imperador da China recebeu um presente de seu amigo, o imperador do Japão: um maravilhoso rouxinol mecânico, todo de ouro. Suas asas eram enfeitadas com diamantes, a cauda exibia safiras e os olhos de rubis.
    Bastava girar uma pequena chave, e o rouxinol mecânico cantava uma linda melodia.
    Porém, o rouxinol verdadeiro cantava com o coração e o outro, com molas e cilindros de aço. As duas vozes não combinavam, e o imperador se aborreceu:
    — Que o rouxinol mecânico cante sozinho! – ordenou.
    Trinta vezes seguidas o belo brinquedo repetiu a mesma melodia sem mudar uma nota sequer, entre aplausos e elogios da corte que o ouvia.
    Na trigésima primeira apresentação o imperador disse que já era o bastante.
    — E agora, que cante o rouxinol verdadeiro! – ordenou.
    Mas o passarinho não foi encontrado. Aproveitando-se do descuido geral, tinha voado pela janela aberta em direção à mata, onde sempre vivera em total liberdade. Mas o imperador não ficou triste, pois afinal estava satisfeito com o rouxinol mecânico.
    Para que todos os súditos admirassem seu rouxinol, permitiu um espetáculo público. Muitos se deslumbraram. Mas quem já ouvira a voz do rouxinol verdadeiro, na mata, não se convenceu:
    — Há enorme diferença entre os dois…
    Não importava a opinião dos outros. O imperador, a cada dia que passava, ficava mais animado com aquele extraordinário brinquedo. O aparelhinho repousava em uma almofada de seda, ao lado da cama do soberano, que a cada momento lhe dava corda, contente com aquele canto sempre igual.
    Certa noite, o delicado mecanismo se rompeu, produzindo um ruído estranho. O imperador mandou chamar um experiente relojoeiro, que encontrou uma mola quebrada e trocou-a.
    Mas avisou ao imperador que o mecanismo já estava bem gasto, e que o rouxinol mecânico só poderia cantar uma vez por ano, para evitar que quebrasse definitivamente.
    O imperador ficou muito triste com isso, mas foi obrigado a seguir o conselho do relojoeiro.
    Passaram-se os anos, e um dia o imperador adoeceu gravemente. Repousava entre seus lençóis de cetim e as cobertas de seda bordadas mas, apesar de tanto luxo, estava só.
    Nobres e ministros discutiam a sucessão ao trono, médicos pesquisavam novos remédios para receitar ao ilustre doente, a criadagem dormia. Ninguém fazia companhia ao enfermo.
    Em certo momento, o imperador abriu os olhos e viu a Morte sentada a seu lado, em seu assustador manto negro, encarando-o silenciosamente. Entendeu que chegara sua última hora, e então se virou para o rouxinol mecânico e sussurrou:
    — Cante, suplico-lhe. Cante, quero escutar sua voz mais uma vez, antes de morrer.
    Mas o rouxinol permaneceu calado. Não havia ninguém que lhe desse corda, e ele, sozinho, não podia cantar.
    De repente, uma melodia muito doce, enternecedora ressoou nos aposentos. No parapeito da janela, estava o rouxinol verdadeiro. O passarinho soubera da morte inevitável do imperador e viera trazer-lhe seu consolo musical, ainda que sem ouro, brilhantes, safiras e rubis.
    A Morte também se pôs a escutar aquele doce canto e, quando o rouxinol se calou, pediu para que continuasse. A música se espalhou pelo amplo aposento e, a cada nota, o imperador se sentia melhor. Enquanto isso, dona Morte foi se afastando devagar.
    — Repouse, agora, Majestade – disse com carinho o rouxinol. – Amanhã acordará curado.
    E ficou ali, com seus gorjeios, entoando uma suave canção de ninar.
    No dia seguinte, ao despertar, o imperador se sentia bem e se levantou. O rouxinol ainda estava no parapeito da janela.
    — Meu salvador! – disse-lhe o imperador. – Fui ingrato com você, ao preferir o rouxinol mecânico. Mas agora pretendo me desculpar. Vou destruir aquele tolo brinquedo, se quiser, mas peço-lhe que nunca mais me abandone.
    — Não me peça isso – respondeu o rouxinol. – Vou ficar com muito gosto junto de Vossa Majestade, mas com a condição de não me prender mais na gaiola. Deixe-me livre, permita que eu viva nos bosques. Virei cantar sempre que quiser, e também lhe contarei tudo o que vejo no seu império. Assim, saberá das injustiças que devem ser punidas, e das boas ações que merecem ser recompensadas. Seu povo poderá ser bem mais feliz.
    O imperador concordou, e o rouxinol foi embora. Mais tarde, na hora em que os cortesãos, médicos e empregados entraram no aposento do doente, temendo encontrá-lo morto, viram-no em pé, alegre, feliz e bem-disposto. E nunca souberam, nem sequer imaginaram, o motivo de tal prodígio.

Autor Desconhecido


Uma história sobre amizade, respeito lealdade e liberdade. Conceitos escassos em nossa comunidade e sobre os quais é importante todo Bardo saber histórias para, através delas, transmitir valores cada vez mais relegados e esquecidos.


Texto extraído do "Livro do Aluno – volume 2", também entitulado "Contos Tradicionais, Fábulas, Lendas e Mitos", do Projeto Escola Ativa realizado pela FNDE.

E, falando em grilhões, escute "Woman in Chains", cantada pelo Tears for Fears.
Acompanhe a letra e a tradução pelo próprio link, e assista o vídeo clipe ou a uma animação com esta canção.

Com agradecimentos a Jonathans Medeiros pelos vídeos.

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3 Comentários:

Anonymous Nil Tojal disse...

Eu ja conhecia esta historia... é linda..eu ja tinha o conhecimento dela atraves da Tv Cultura... em um programa que mostra teatros infantis....muito linda realmente .. abraços

26 setembro, 2006 19:58  
Blogger Tatiana Mamede disse...

E graças a todos os nossos amigos rouxinóis, que vão e vem qdo bem entendem, e qdo mais sentem que é o que precisamos!

Obrigada pela linda história, meu caro amigo rouxinol!

Beijos.

29 setembro, 2006 08:58  
Anonymous Ninfa Lua disse...

Devemos cultivar as amizades rouxinol, pois a única coisa que amizades assim querem é nos ver saudáveis e alegres.
Belo texto.
Abração!

29 setembro, 2006 19:52  

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