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Bardo da Ordem Druídica Vozes do Bosque Sagrado.

14 de novembro de 2006

E o Tal do "Uno"?

“Nada é tão inacreditável que
a oratória não torne aceitável”

Marcus Julio Cícero,
orador romano


Não existe no Druidismo qualquer referência sobre uma energia intitulada "Uno" ou o qualquer coisa nesse sentido. Tal construto não é mais que uma das tentativas de paralelização entre a crença celta e o dito "renascimento druídico" do século XVIII, o qual procurava "legitimar" os Druidas como "precursores do Cristianismo", fundamentando tal teoria com falsos argumentos, entre eles a idéia de que teriam uma religião diferente da dos povos celtas, mentira esta já apontada pela história e pela arqueologia como mera invenção. O "Uno" não existe.

As idéias começaram a fervilhar em minha mente quando li a carta do cacique Seattle há alguns anos atrás e comecei a perceber como a unidade e a interdependência das coisas são conceitos pouco compreendidos por quem decide vivenciar a jornada até os Deuses, e portanto visões de outras culturas e religiosidades acabam "importadas" para a prática dessas pessoas, o que é perfeitamente normal num período de transição, mas inconcebível quando falamos do que seja o Druidismo em si. Isso aliado a muitas conversas que tive durante os últimos anos me fez vislumbrar o motivo da confusão que culminou no "Uno", e tudo começou a clarear em minha mente embora eu ainda não conseguisse externalizar como isso se encaixe.

Resolvi então meditar e pesquisar durante mais algum tempo para enfim poder falar melhor a respeito do que poderia vir a ser esse tal de "Uno" que tão brilhantemente enche de devaneios os corações dos mais novos e tão eficientemente evoca a agressividade dos mais comprometidos com alguma das sendas dos Deuses, e logo de início percebi que para fazê-lo seria necessário estar despido dos preconceitos de uns e da necessidade de fiar-se em crenças "socialmente aceitas" de outros e, principalmente, aprender a transmitir essa idéia sem a fazer parecer uma divindade de qualquer tipo, pois isso ela não é.

Nos meus anos de Paganismo, e desde antes de abraçar o Druidismo como fé e sacerdócio, eu volta e meia esbarrei nos preconceitos contra esse termo, mas sou da opinião de que preconceitos são premissas perigosas demais para nos servir de base para qualquer reflexão, e esperei até poder fazer essa afirmação com toda essa certeza antes de escrever a esse respeito. Eis então o que aprendi em minha experiência como Bardo e druidista:

Não existe uma energia a partir da qual os Deuses se originariam, e é simples assim. Eles têm sua linhagem e alguns são incriados. Eles tampouco são egrégoras ou arquétipos que servem a nosso bel-prazer ou colorem nossa psique, mas existem em diversas formas, adaptadas a como cada cultura Os possa compreender e assimilar.

Assim, Sua mensagem sempre pôde chegar a cada grupo social numa forma adequada a como essa sociedade lide com o ambiente a seu redor. Isso tudo faz parte da diversidade que é o politeísmo e, como druidista, sou necessariamente um politeísta. Na abordagem reconstrucionista, que é a única a qual reconhecemos como Druidismo, não há druidistas que creiam no divino de outra forma.

Mas o que seria então essa comunhão de tudo? Antigamente, ainda no meu tempo de hermetista, eu costumava dizer que tudo era um só, mas hoje em dia compreendi que somos diversos, diferentes e complementares, e que tudo não é um só, mas uno em sua diversidade e único em sua individualidade. Sim, uno com todas as três letrinhas minúsculas, sem título ou personalidade própria, pois esta palavra não se aplica a um criador, mas ao conjunto da criação e da existência.

Toda a diversidade do cosmos interage dinamicamente de formas as quais nenhuma ciência conseguiu ainda compreender ou mapear, e embora a física esteja na vanguarda das "descobertas" que têm aberto a mente da humanidade ainda estamos muito longe de poder vislumbrar nossa real participação no universo.

Portanto, e de acordo com esse cenário, uma entidade chamada "Uno" serve apenas ao propósito de tentar reaproximar uma pessoa dos ideais e valores defendidos pelos povos que antigamente cultuavam (exemplo dos celtas) ou ainda cultuam (comunidades indígenas) Deuses pagãos sem ter que arcar com o ônus de comprometer-se e abraçar verdadeiramente o culto a tais divindades, Seus valores e Sua liturgia, ou ainda lidar com a incômoda responsabilidade de assumir perante a sociedade a "mácula" de ser "diferente", de ser verdadeiramente pagão e de seguir num rumo paralelo ao das pessoas à nossa volta. Assim, tem sido mais fácil transformá-los em "egrégoras", "arquétipos" ou mesmo no tal do "Uno", tornando-os meros conceitos racionalizados ao invés de uma energia viva, pulsante e divina a qual ainda muitos têm vergonha em assumir.


Leituras indicadas:

A Importância da Diversidade, publicado no dia 16-10-2006.
Carta do chefe Seattle, publicado no dia 11-08-2006.
Ilusões, Mentiras, Consciência e Liberdade, publicado no dia 17-10-2006.


Ouça o som dos Deuses baixando e escutando "Awen", composta e interpretada por Dave the Flute e disponibilizada em formato mp3 originalmente no site da BDO.

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4 Comentários:

Anonymous Ninfa Lua disse...

Olá Malhado!Adorei!
O gostoso da diversidade está justamente em podermos tratar os desiguais com igualdade.Um Gde Beijo!!!
Ninfa Lua.

18 novembro, 2006 23:33  
Blogger Su disse...

Li e me perguntei: até quando a transição?

"...tudo não é um só, mas uno em sua diversidade e único em sua individualidade."

Beijos

20 novembro, 2006 08:06  
Blogger Tami Fada disse...

Tami aproveitando para estudar um pouco... e refletir!

=)))

Como é agradável aprender com o Sr., Malhado!

Grande Beijo!

22 fevereiro, 2007 20:48  
Blogger flavioceratti disse...

A idéia de um Deus primordial esta muito arraigada na história da humanidade, mesmo em diversas religiões politeístas. Não sei até que ponto é vantajoso levar em frente essa questão da existência ou não do Uno. Ultimamente eu tenho preferido pensar nos Deuses como atributos da divindade plena, ou seja, daquela compreensão de Deus onisciente, onipotente e onipresente. Atributos representados pelos povos como virtudes, vícios ou forças naturais. Claro que isso representa reflexões minhas e não essa ou aquela religião. Como sou um aprendiz na vida tenho muito o que refletir e de forma alguma julgo ter a razão dos fatos.
É muito instrutivo ler esses textos do seu blog. Valeu a dica.

Flavio Ceratti

16 setembro, 2007 00:30  

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