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Bardo da Ordem Druídica Vozes do Bosque Sagrado.

23 de novembro de 2006

O Mito da Caverna

Sócrates — Figura-te agora o estado da natureza humana, em relação à ciência e à ignorância, sob a forma alegórica que passo a fazer. Imagina os homens encerrados em morada subterrânea e cavernosa que dá entrada livre à luz em toda extensão. Aí, desde a infância, têm os homens o pescoço e as pernas presos de modo que permanecem imóveis e só vêem os objetos que lhes estão diante. Presos pelas cadeias, não podem voltar o rosto. Atrás deles, a certa distância e altura, um fogo cuja luz os alumia; entre o fogo e os cativos imagina um caminho escarpado, ao longo do qual um pequeno muro parecido com os tabiques que os pelotiqueiros põem entre si e os espectadores para ocultar-lhes as molas dos bonecos maravilhosos que lhes exibem.

Glauco — Imagino tudo isso.

Sócrates — Supõe ainda homens que passam ao longo deste muro, com figuras e objetos que se elevam acima dele, figuras de homens e animais de toda a espécie, talhados em pedra ou madeira. Entre os que carregam tais objetos, uns se entretêm em conversa, outros guardam em silêncio.

Glauco — Similar quadro e não menos singulares cativos!

Sócrates — Pois são nossa imagem perfeita. Mas, dize-me: assim colocados, poderão ver de si mesmos e de seus companheiros algo mais que as sombras projetadas, à claridade do fogo, na parede que lhes fica fronteira?

Glauco — Não, uma vez que são forçados a ter imóveis as cabeças durante toda a vida.

Sócrates — E dos objetos que lhes ficam por detrás, poderão ver outra coisa que não as sombras?

Glauco — Não.

Sócrates — Ora, supondo-se que pudessem conversar, não te parece que, ao falar das sombras que vêem, lhes dariam os nomes que elas representam?

Glauco — Sem dúvida.

Sócrates — E, se, no fundo da caverna, um eco lhes repetisse as palavras dos que passam, não julgariam certo que os sons fossem articulados pelas sombras dos objetos?

Glauco — Claro que sim.

Sócrates — Em suma, não creriam que houvesse nada de real e verdadeiro fora das figuras que desfilaram.

Glauco — Necessariamente.

Sócrates — Vejamos agora o que aconteceria, se se livrassem a um tempo das cadeias e do erro em que laboravam. Imaginemos um destes cativos desatado, obrigado a levantar-se de repente, a volver a cabeça, a andar, a olhar firmemente para a luz. Não poderia fazer tudo isso sem grande pena; a luz, sobre ser-lhe dolorosa, o deslumbraria, impedindo-lhe de discernir os objetos cuja sombra antes via.

Que te parece agora que ele responderia a quem lhe dissesse que até então só havia visto fantasmas, porém que agora, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, via com mais perfeição? Supõe agora que, apontando-lhe alguém as figuras que lhe desfilavam ante os olhos, o obrigasse a dizer o que eram. Não te parece que, na sua grande confusão, se persuadiria de que o que antes via era mais real e verdadeiro que os objetos ora contemplados?

Glauco — Sem dúvida nenhuma.

Sócrates — Obrigado a fitar o fogo, não desviaria os olhos doloridos para as sombras que poderia ver sem dor? Não as consideraria realmente mais visíveis que os objetos ora mostrados?

Glauco — Certamente.

Sócrates — Se o tirassem depois dali, fazendo-o subir pelo caminho áspero e escarpado, para só o liberar quando estivesse lá fora, à plena luz do sol, não é de crer que daria gritos lamentosos e brados de cólera? Chegando à luz do dia, olhos deslumbrados pelo esplendor ambiente, ser-lhe ia possível discernir os objetos que o comum dos homens tem por serem reais?

Glauco — A princípio nada veria.

Sócrates — Precisaria de algum tempo para se afazer à claridade da região superior. Primeiramente, só discerniria bem as sombras, depois, as imagens dos homens e outros seres refletidos nas águas; finalmente erguendo os olhos para a lua e as estrelas, contemplaria mais facilmente os astros da noite que o pleno resplendor do dia.

Glauco — Não há dúvida.

Sócrates — Mas, ao cabo de tudo, estaria, decerto, em estado de ver o próprio sol, primeiro refletido na água e nos outros objetos, depois visto em si mesmo e no seu próprio lugar, tal qual é.

Glauco — Fora de dúvida.

Sócrates — Refletindo depois sobre a natureza deste astro, compreenderia que é o que produz as estações e o ano, o que tudo governa no mundo visível e, de certo modo, a causa de tudo o que ele e seus companheiros viam na caverna.

Glauco — É claro que gradualmente chegaria a todas essas conclusões.

Sócrates — Recordando-se então de sua primeira morada, de seus companheiros de escravidão e da idéia que lá se tinha da sabedoria, não se daria os parabéns pela mudança sofrida, lamentando ao mesmo tempo a sorte dos que lá ficaram?

Glauco — Evidentemente.

Sócrates — Se na caverna houvesse elogios, honras e recompensas para quem melhor e mais prontamente distinguisse a sombra dos objetos, que se recordasse com mais precisão dos que precediam, seguiam ou marchavam juntos, sendo, por isso mesmo, o mais hábil em lhes predizer a aparição, cuidas que o homem de que falamos tivesse inveja dos que no cativeiro eram os mais poderosos e honrados? Não preferiria mil vezes, como o herói de Homero, levar a vida de um pobre lavrador e sofrer tudo no mundo a voltar às primeiras ilusões e viver a vida que antes vivia?

Glauco — Não há dúvida de que suportaria toda a espécie de sofrimentos de preferência a viver da maneira antiga.

Sócrates — Atenção ainda para este ponto. Supõe que nosso homem volte ainda para a caverna e vá assentar-se em seu primitivo lugar. Nesta passagem súbita da pura luz à obscuridade, não lhe ficariam os olhos como submersos em trevas?

Glauco — Certamente.

Sócrates — Se, enquanto tivesse a vista confusa -- porque bastante tempo se passaria antes que os olhos se afizessem de novo à obscuridade -- tivesse ele de dar opinião sobre as sombras e a este respeito entrasse em discussão com os companheiros ainda presos em cadeias, não é certo que os faria rir? Não lhe diriam que, por ter subido à região superior, cegara, que não valera a pena o esforço, e que assim, se alguém quisesse fazer com eles o mesmo e dar-lhes a liberdade, mereceria ser agarrado e morto?

Glauco — Por certo que o fariam.

Sócrates — Pois agora, meu caro Glauco, é só aplicar com toda a exatidão esta imagem da caverna a tudo o que antes havíamos dito. O antro subterrâneo é o mundo visível. O fogo que o ilumina é a luz do sol. O cativo que sobe à região superior e a contempla é a alma que se eleva ao mundo inteligível. Ou, antes, já que o queres saber, é este, pelo menos, o meu modo de pensar, que só os Deuses sabem se é verdadeiro. Quanto à mim, a coisa é como passo a dizer-te. Nos extremos limites do mundo inteligível está a idéia do bem, a qual só com muito esforço se pode conhecer, mas que, conhecida, se impõe à razão como causa universal de tudo o que é belo e bom, criadora da luz e do sol no mundo visível, autora da inteligência e da verdade no mundo invisível, e sobre a qual, por isso mesmo, cumpre ter os olhos fixos para agir com sabedoria nos negócios particulares e públicos.


Texto originalmente extraído do livro "A República", de Platão. 6ª edição. Editora Atena, 1956, páginas 287 a 291, e adaptado por Alexandre Malhado.


Muito se fala a respeito desse texto, mas poucas sãos as fontes para encontrá-lo. Então, já que o encontrei, disponibilizo-o e aguardo os comentários. Ao invés de comentário com minhas palavras, a música de hoje é meu comentário e sugestão.

Então, enquanto reflete a respeito do texto, escute"Perfeição", do Legião Urbana e chegue Às suas próprias concluões quanto ao que diz a canção.
Acompanhe a letra pelo próprio link.

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5 Comentários:

Anonymous Nil Tojal disse...

Malha esse texto me lembrou as sombras que temos, na qual podemos ficar loucos ao contemplar e ao mesmo tempo que tambem podemos estar esclarecidos ao poder entender essas sombras....

parabens mais uma vez pelo texto

23 novembro, 2006 20:20  
Blogger Luciana Onofre disse...

Mais perfeito não poderia ser...Poderia?

Besos Guapo!

24 novembro, 2006 17:08  
Anonymous Tir Na Duan disse...

Faltou ao Joshua vontade de continuar o texto...
"Muito longo!", reclamava ele. "Muito difícil!", grunhia. "Que monte de palavras toscas!", apontava... sem perceber sua própria tosqueira...
"Arre!", digo eu...

26 novembro, 2006 10:25  
Blogger Su disse...

Que tal uma noite estudos para discutirmos?

26 novembro, 2006 21:10  
Blogger ([salix sam]) disse...

Mas apartir do momento em que se consegue dicernir o que é "real"...do que é aparência....a partir do momento em que vc "sabe".....nunca mais, mesmo que se queira, é possível voltar ao que era antes. Mesmo que tente se enganar....aquilo que contemplamos como "é" muda completamente a nossa vida.

^^penso eu

01 maio, 2008 19:49  

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