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Bardo da Ordem Druídica Vozes do Bosque Sagrado.

15 de maio de 2007

Bolinhos de Bebês

Alguns anos atrás, todos os animais foram embora.
Acordamos uma manhã e eles simplesmente não estavam mais lá.
Nem mesmo nos deixaram um bilhete ou disseram adeus.
Nunca conseguimos saber ao certo para onde foram.
Sentimos sua falta.
Alguns de nós pensaram que o mundo tinha se acabado, mas não tinha.
Só que não havia mais animais.
Não havia gatos ou coelhos, cachorros ou baleias, não havia peixes nos mares, nem pássaros nos céus.
Estávamos sós.
Não sabíamos o que fazer.

Vagueamos por aí, perdidos por um tempo, e então alguém observou que, só porque não tínhamos mais animais, não havia motivo para mudar nossas vidas.
Não havia razão para mudar nossa dieta ou parar de testar produtos que podem nos fazer mal.
Afinal de contas, ainda havia os bebês.

Bebês não falam. Mal podem se mexer.
O bebê não é uma criatura racional, pensante.
Fizemos bebês.
E os usamos.
Alguns deles, comemos. Carne de bebê é tenra e suculenta.
Esfolamos suas peles e nos enfeitamos com elas.
Couro de bebê é macio e confortável.

Alguns deles, usamos em testes.
Mantínhamos seus olhos abertos com fitas adesivas e pingávamos detergentes e shampoos neles, uma gota de cada vez.
Nós os marcamos e os escaldamos. Nós os queimamos.
Nós os prendemos com braçadeiras e plantamos eletrodos em seus cérebros. Enxertamos, congelamos e irradiamos.
Os bebês respiravam nossa fumaça e, nas veias dos bebês, fluíam nossos remédios e drogas, até eles pararem de respirar ou até o sangue deles não correr mais. Era duro, é claro, mas necessário.
Ninguém podia negar isso.
Com a partida dos animais, o que mais podíamos fazer?

Algumas pessoas reclamaram, claro. Mas elas sempre fazem isso.
E tudo voltou ao normal.
Só que...
Ontem, todos os bebês se foram.
Não sabemos para onde. Nem mesmo os vimos partir.
Não sabemos o que vamos fazer sem eles.
Mas pensaremos em algo. Humanos são espertos. É o que nos faz superiores aos animais e aos bebês.
Vamos bolar alguma coisa.

Neil Gaiman


Este é um daqueles textos que preciso ler de vez em quando, não apenas para descontrair da correria do cotidiano, mas justamente para não relaxar em excesso e esquecer da verdadeira natureza humana, a qual lutamos bravamente para modificar.


Arrume outro alimento enquanto relaxa ao som de "C'est Dur Dur D'Être Bébé", cantada por Jordy. Acompanhe a letra e a tradução desta música ou simplesmente dance ao som do vídeo clipe.

Em especial para Carolina (Lili), verdadeira autora do texto divulgado no dia 10 deste mês.

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2 Comentários:

Blogger Melian Stern disse...

"Humanos são espertos. É o que nos faz superiores aos animais e aos bebês." Hahahha, nós humanos nos achamos demais, enquanto na verdade não somos nem melhores nem piores que qq outro ser vivo existente neste planeta quiça neste universo!!!!

Como somos petulantes, mas felizmente ainda esbarro com seres humanos, ou seriam não seres humanos,que não se acham superiores só pq pensam.

Bjossss

15 maio, 2007 18:31  
Blogger Su disse...

Ai

16 maio, 2007 01:42  

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